"Marcelo Eloi, Marcelo China, Marcio Costa e Fernando Regis são instrumentistas dos bons. Marcelo toca percussão e cavaquinho, China, violão de seis cordas, Marcio e Nando, bandolim e cavaco. E os quatro cantam! Reunidos pelo amor à música, surge mais um grupo de samba, certo? Não, errado! Quem assim pensa é porque sabe pouco do que é o Toque.
Com formação instrumental tradicional, os moços amam o samba e querem tocá-lo e cantá-lo do jeito que assuma a cara que imaginaram para ele.
O toque da arte que dão à sua interpretação é calcado numa vocalização mais, digamos, sofisticada. Sacado o jeito, os quatro foram buscar auxílio com alguém experiente no ramo: Magro Waghabi – diretor musical do MPB4 há mais de 40 anos. O maestro vestiu a camisa do samba vocalizado pretendido e escreveu quase todos os arranjos cantados no primeiro CD de Marcelo, China, Nando e Marcio. Hoje, mais amadurecidos, os quatro trouxeram para si a responsabilidade de criar a maioria dos arranjos vocais.
Pelos Quatro Cantos (gravadora Albatroz), segundo trabalho do Toque de Arte, confirma a vocação do grupo em aprofundar as vocalizações para o samba.
Fugindo da “facilidade” que o mercado dissimula dar enquanto refreia quem cai na cilada, o Toque encontrou bom caminho para sua música. Sem perder a simplicidade que faz do gênero música para ouvir e dançar, eles demonstram coragem ao elaborar as vocalizações de seu repertório. Chama atenção a diversidade das escolhas. Lá estão “Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida" (Paulinho da Viola); “Rio Antigo” (Chico Anísio e Nonato Buzar), que tem participação especial de Alcione; “Retalhos de Cetim” (Benito de Paula); e “La Belle de Jour” (Alceu Valença), dentre outras.
Neste novo álbum, os arranjos de base, a cargo de Alceu Maia, se valem de alternâncias de dinâmicas rítmicas e harmônicas, ora deixando as vozes sob os cuidados do naipe de percussão, ora dando prioridade a apenas um instrumento que tanto pode ser o sax (Dirceu Leite) e o cavaco (Alceu Maia), quanto o violão de 7 (Carlinhos Sete Cordas). Tudo em perfeita harmonia com arranjos vocais, que pedem tal cuidado para se mostrarem sofisticadamente populares como os querem o Toque de Arte.
Logo na abertura, a vocalização criada por Magro dá a pala do que será a tônica vocal dos sambas que se seguirão. Ou seja: carregada de contracantos – que permitem à melodia principal o brilho, enquanto eles, “secundários”, se fazem de coadjuvantes a dar ao vocal a graça que atiça os ouvidos de quem ama cantar e ouvir vozes juntas.
Também compositores, os integrantes do Toque de Arte cantam “Por Que Não Tentar Ser Feliz” (Marcelo China, Marcio Costa e Fernando Regis), samba cadenciado solado por Marcio; cantam “Valeu Cartola” (Fernando Regis e Flavio Oliveira), belíssimo samba em tom menor; cantam “Um Canto de Fé” (Marcio Costa), que conta com um som diferente de cavaco, já que tocado com afinação de bandolim; e cantam ainda “Escravo de Mim” (Marcelo Eloi e Fernando Regis), samba acelerado, movido pela percussão cheia de balanço.
Mas é o ótimo samba de Djavan a marca registrada do que quer o Toque: divisões rítmicas valorizadas por vocalização original que ora dá lugar a solos vocais de Marcelo China, ora ao sax e à percussão.
Abusado é o arranjo criado pelo Toque para “Minha História”, de Chico Buarque. Mudanças na melodia original, por necessidade de fazê-la em ritmo de samba lento, dão à letra outros tons; e a referência a “Meu Guri” é bela sacada, o que demonstra que os meninos estão antenados.
Magro estava inspirado ao criar o arranjo para “Aquarela Brasileira”, antológico samba-enredo de Silas de Oliveira. Referências a “Samba do Avião” e a “Aquarela do Brasil” se seguem à abertura cantada a capella. E um bom fecho, quando versos são cantados aleatoriamente, dá ao samba versão personalíssima.
O canto dos quatro do Toque de Arte se apronta para ir a todos os cantos do Brasil, que recebe com aplausos seu samba afinadamente vocalizado."
Aquiles Rique Reis, músico e integrante do MPB4